
Crossover está na moda, nós sabemos. Mas, afinal o que é um crossover? Esta é uma designação do mercado para aqueles livros que tem potencial de cobrir dois públicos de distintos leitores: o público infanto-juvenil e o público adulto. Nunca sabemos se o livro de fato tem essa característica, o editor apenas vislumbra a possibilidade, e aposta nela. Quando o livro revela-se um crossover, é sem dúvida um grande embalo para as vendas.
Por exemplo, Harry Potter se revelou um crossover. Crepúsculo também.
Queremos um crossover!
Outro dia, no entanto, ocorreu um crossover diferente aqui na editora. Um crossover rebelde, um motor crossover. O livro O menino, estava entre a pilha de novos autores. Pelo título, foi encaminhado ao departamento Infanto juvenil. Alguns meses depois, recebo o telefonema do autor. Ele quer saber o que acharam do livro dele:
- Seu livro?
- É, O menino.
- Ah, sim. Está sendo avaliado pelo departamento Infanto juvenil.
- Minha senhora, temo que tenha ocorrido um pequeno engano. O menino é uma história de pedofilia, por isso até estou ligando.
- Claro, pedofilia.
- É, não acho que eles vão gostar do livro por lá.
Fui atropelada por O menino, que deu uma de crossover. No parecer final, definitivamente não era infanto juvenil, talvez nem adulto...
Pequenas confusões num dia a dia tão rápido e tão cheio de surpresas. Segue a procura de um crossover.

Muitos escritores relatam gritos de independência de seus personagens. À medida que vão tomando vida, passam a ser donos das suas atitudes, vão caminhando com as próprias pernas e surpreendendo seus criadores - que por sua vez perdem o controle dos seus atos. Dominam a narrativa, decidem os seus destinos. Seriam os personagens como os filhos?

