sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MOTOR CROSSOVER


Crossover está na moda, nós sabemos. Mas, afinal o que é um crossover? Esta é uma designação do mercado para aqueles livros que tem potencial de cobrir dois públicos de distintos leitores: o público infanto-juvenil e o público adulto. Nunca sabemos se o livro de fato tem essa característica, o editor apenas vislumbra a possibilidade, e aposta nela. Quando o livro revela-se um crossover, é sem dúvida um grande embalo para as vendas.

Por exemplo, Harry Potter se revelou um crossover. Crepúsculo também.
Queremos um crossover!

Outro dia, no entanto, ocorreu um crossover diferente aqui na editora. Um crossover rebelde, um motor crossover. O livro O menino, estava entre a pilha de novos autores. Pelo título, foi encaminhado ao departamento Infanto juvenil. Alguns meses depois, recebo o telefonema do autor. Ele quer saber o que acharam do livro dele:

- Seu livro?
- É, O menino.
- Ah, sim. Está sendo avaliado pelo departamento Infanto juvenil.
- Minha senhora, temo que tenha ocorrido um pequeno engano. O menino é uma história de pedofilia, por isso até estou ligando.
- Claro, pedofilia.
- É, não acho que eles vão gostar do livro por lá.

Fui atropelada por O menino, que deu uma de crossover. No parecer final, definitivamente não era infanto juvenil, talvez nem adulto...
Pequenas confusões num dia a dia tão rápido e tão cheio de surpresas. Segue a procura de um crossover.

domingo, 4 de outubro de 2009

Editoração e a importância do timing

Talvez venha a fazer sentido a você leitor que trabalha com livros, pelo menos, o devia.
Aprendi ao longo do dia-a-dia numa editora a importância do timing. (Timing: um relógio com cronômetro. Tempo necessário: um tempo próprio, a cada prova).
Levando a comparação a uma prova de atletismo, digo que cada livro tem implícito, e com alta relevância, seu timing. Atento aqui à sensibilidade do editor, que não se volte apenas para a relevância temática de um livro, para a sua qualidade textual. Esse livro tem por fundamental um tempo certo para acontecer.
Algumas vezes se deve à correria do mercado para a compra de títulos – neste caso, como num duelo, ganha quem puxa o gatilho mais rápido. À sombra de alguma possibilidade de best-seller, ou à suspeita de um altamente vendável, corra, aja, mova-se. Em outras ocasiões, não é bom mostrar-se muito entusiasmado; aparente deixá-lo à deriva, e espere o interesse de um outro editor. Se não houver interesse, bingo! A negociação se dará ao preço que se deseja.
Um livro que passa do tempo, pode-se dizer, foi perdido. Perdeu-se no fundo da estante dos desinteressados, onde não mais chama a atenção. Nem mesmo o editor tem vontade de trabalhá-lo. Outros livros, no entanto, precisam de um tempo, um tempo muito maior – precisam amadurecer. Estes, aguardam, aguardam o momento certo.
Estas são sutilezas de um mercado disparado em alta velocidade, que corre por vias estreitas. O risco é grande, o que dobra a atenção necessária.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A luz das idéias

Muitos escritores relatam gritos de independência de seus personagens. À medida que vão tomando vida, passam a ser donos das suas atitudes, vão caminhando com as próprias pernas e surpreendendo seus criadores - que por sua vez perdem o controle dos seus atos. Dominam a narrativa, decidem os seus destinos. Seriam os personagens como os filhos?
Esse paralelo me ocorre num momento de reflexão acerca do processo criativo. Um processo que resulta de muitos elementos sensórios e cuja riqueza reside na multiplicidade de olhares e pensamentos. Uma idéia nunca é resultado da experiência solitária e sim decorrente do que é compartilhado.
O brainstorm, muito em prática em equipes, e por vezes estabelecido de forma informal, é um eficiente método para o desenvolvimento das idéias.
Mas afinal o resultado a quem pertence? A dúvida paira, muitas vezes o desconforto se instaura. E aí? Quem colhe os louros? Quem se responsabiliza pelo resultado?
Como os personagens que se libertam dos seus autores e dos filhos que crescem, as idéias também se libertam de nós, tomam forma, encontram seus caminhos e o lugar certo para se materializarem. Em muitos casos contrariam as nossas expectativas. Às vezes se realizam através do outro. Nesse caso o árduo exercício do desapego torna-se essencial.
Temos que ser generosos com as idéias, para que nunca nos faltem, para que estejamos em processo criativo permanente. Para que a mais inovadora e incrível delas surja no exato momento em que a desejamos, ou precisamos. E que sua luz se ilumine em nós e também no outro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Copidescagens


Sem dúvida alguma todas neste blog já se depararam com essa tarefa alguma vez. Provavelmente muitas, na verdade. Hoje, junto com a tradução, essa é uma de minhas principais atribuições e muitas vezes me pergunto quais são as características necessárias a um bom copidesque. Ainda não consegui chegar a uma resposta 100% satisfatória, se é que esta existe, mas, quem sabe, vocês, minhas colegas, não conseguem me dar uma luz?

Um excelente conhecimento da língua portuguesa, com todos os seus meandros e reformas é necessidade básica. Intimidade com a língua do original, no caso de traduções, também é um fator definitivo. Um vocabulário vasto, noções consistentes de estilo e um bom jogo de cintura para criar soluções vocabulares que funcionem são outros requisitos igualmente importantes. Entretanto, o que mais me atrai no trabalho de copidesque é descobrir o que não conheço, partir de um certo estranhamento que alguma frase ou palavra me causam, embora eu não saiba exatamente o porquê, e numa pesquisa no Google, uma consulta com um amigo ou através das fontes mais mirabolantes, consigo descobrir que de fato aquele não era o termo exato, que o período realmente apresentava alguma discrepância que poderia ser resolvida com relativa facilidade. E, para isso, nunca pensei que fosse me valer tanto daquilo que as pessoas ditas como "normais" costumam a chamar de cultura inútil. Fofoquinhas sobre artistas, títulos de livros obscuros, tardes inteiras passadas ao lado de revistas de moda tidas como fúteis, filmes Z, dados esquisitos sobre coisas mais bizarras ainda. Tudo isso é o que monta o material mais valioso de qualquer copidesque e tradutor. É o que o diferencia de outros profissionais da mesma área e lhe dá personalidade.

Nunca pensei que algum dia fosse ter tanto orgulho da minha curiosidade bizarra e, melhor ainda, transformá-la em profissão.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Triangulo amoroso


A imprensa brasileira reserva muito pouco espaço para crítica literária. Na maior parte dos cadernos dedicados aos livros, as resenhas - sempre focadas nos lançamentos - se fazem muito mais presentes do que o que podemos considerar uma crítica. Portanto, cada vez que um livro merece a atenção de um crítico, reconhecido e respeitado como tal, podemos considerar um indício de prestigio do escritor.
Um sinal de que o crítico acha que vale a pena escrever sobre ele, que ele merece compartilhar a sua opinião e o faz por acreditar no potencial de crescimento desse autor.
No entanto a critica não elogiosa, a que carrega em si a sua mais pura acepção, a de análise criteriosa, cuidadosa e fundamentada, por muitas vezes frustra. Frustra por que esperamos elogios, não somente o autor, mas também nós editores, que nutrimos pelo livro e pelo autor um amor quase materno. Materno no cuidado, no sentido de proteção, de experiência compartilhada e também no sentido de posse do que abrigamos e acolhemos, com uma dose de rigor, mas também com pura emoção.
Que me perdoe o escritor incógnito na capa de uma edição recente do caderno Prosa & Verso, aquele que se coloca diante do editor como um incompreendido, que ressalta a vaidade como sua característica predominante. Não que ela não exista, mas essa vaidade é fruto do livro. Ela é legítima, ela é para e a favor do escritor.
Autor e editor se complementam numa relação que deve ser pautada pela confiança e temperada com delicadeza. O crítico reforça essa cumplicidade, criando mais um vértice, ao surpreender no jornal que acompanha pela manhã nossas xícaras de café fresco e quente.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A festa de quem faz livros


Já faz um bom tempo que estou devendo um texto sobre a Flip aqui no blog.

Esse foi o quarto ano que participei da Festa Literária Internacional de Paraty e confirmo mais uma vez que foi uma grande alegria. Além da cidade que dispensa comentários, a boa companhia e o clima de festa que de fato toma conta do Centro Histórico e arredores, para quem trabalha, vive e respira livros como nós, ver mais um evento onde a literatura é o foco é sempre um motivo de comemoração. Entretanto, o que diferencia a Flip de tantos outros eventos do gênero, como as feiras internacionais com seus valores milionários e grande somas em jogo, e as bienais e o seu foco excessivamente (e, muitas vezes "emburrecedoramente") didático é o fato de todos estarem ali unicamente para discutir e falar sobre a paixão pela leitura. No cerne do evento, é isso o que de fato importa. Mesmo nas mesas mais sérias ou nas mais emocionantes, o que realmente une autores, leitores e editores é a ligação intrínseca que cada uma dessas pessoas possui pela literatura e todos os seus rituais. Somados com todos os deleites para os olhos, o paladar e as emoções proporcionados pela cidade, não poderia haver nenhum outro encontro mais agradável e mais autêntico.

Claro que a organização incerta e um tanto caótica do evento e a superlotação de Paraty, que se torna mais impraticável a cada ano, ainda somam pontos negativos para a Festa, mas, mesmo assim, continua valendo a pena. Ainda mais para nós, editores, tradutores, revisores e afins,que, em geral, executamos um trabalho solitário, construído de maneira árdua, paciente e solitária, mas que temos sempre a certeza de que pelo menos em um longo feriado (imposto por nós mesmos) uma vez ao ano iremos compartilhar ideias, doses de cachaça e banhos de mar com gente às vezes não tão parecida conosco, mas que enfrenta no dia a dia as mesmas dúvidas, angústias, desafios e pequenos prazeres.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um texto em mente de Virginia Woolf

"Qualquer pessoa regularmente familiarizada com os rigores da composição dispensará pormenores; como escreveu e pareceu-lhe vil; corrigiu e rasgou; aparou; acrescentou; extasiou-se; desesperou-se; teve suas noites boas e suas manhãs ruins; apreendeu ideias e perdeu-as; viu diante de si o seu livro nítido, e desvaneceu-se; personificou seus heróis, enquanto comia; recitou suas falas, a caminhar; ora chorava; ora ria; vacilou entre este e aquele estilo; ora preferia o heróico e pomposo, em seguida, o singelo e simples; agora os vales de Tempe, depois os campos de Kent ou Cornwall; e não chegou a saber se era o mais divino dos gênios ou o maior louco do mundo."


Trecho de Orlando, Virginia Woolf, publicado pela primeira vez em 1928.
Destaque de Carlos Eduardo Leal para esta postagem.